O Sindicato Nacional dos Aeronautas considera temerária e radical a postura das empresas aéreas de aviação regular nesta negociação salarial. A apresentação de sucessivas propostas negando qualquer reajuste salarial, isto é, o oferecimento de 0% para os salários, levou a negociação a uma situação crítica.
Este fato levou a categoria a decretar estado de greve na assembleia realizada na última quarta-feira, dia 20. Já se passaram quase dois meses da data-base da categoria —1º de dezembro— sem que se tenha avançado minimamente para um acordo.
Esta postura procrastinatória é totalmente contrária à posição da categoria, que busca efetivamente negociar para chegar a um acordo. Em assembleias anteriores, os aeronautas, em demonstração de boa vontade, aprovaram redução da proposta inicial e a inclusão de cláusulas sociais para uma composição.
Ocorreu que, independentemente das rodadas de negociação e da sinalização da categoria em chegar a um bom termo, as empresas não saíram do discurso de 0% de reajuste —houve uma proposta diferente no TST, ainda aquém das expectativas e não formalizada: http://goo.gl/
É inegável que a economia nacional passa por momento desafiador. Por outro lado, diversos fatores e indicadores demonstram que não existe justificativa para penalizar justamente aqueles que geram a riqueza das companhias. Apesar de o país estar passando por uma fase recessiva, a aviação brasileira registrou um crescimento de 33,9% nos últimos quatro anos, fato que a tornou atrativa para o capital estrangeiro, o qual tem feito maciços investimentos em nossas companhias, em especial no ano que passou.
Os indicadores econômicos e os números apresentados até o momento demonstram que as empresas aéreas estão se aproveitando do discurso de crise no país para justificar uma proposta que, se aceita, representará a maior perda salarial de todas as categorias em 2015 e, especificamente quanto aos aeronautas, a maior perda salarial em décadas.
Quais investidores colocariam bilhões de reais em empresas num setor que estaria em crise profunda? As empresas, sem exceção, divulgam em seus relatórios que têm fluxo de caixa para passar com tranquilidade por este período, porém quando a categoria fala em pelo menos repor o índice inflacionário, há a sinalização que não é possível pois não há dinheiro em caixa. Há uma flagrante contradição nos discursos nos diferentes meios.
Este fato demonstra com propriedade a tentativa de utilizar o momento do país para um expressivo achatamento salarial. Podemos citar dados concretos para fundamentar e desmontar a falsa argumentação patronal de que o setor está em dificuldades extremas:
— De 2010 a 2014, dados da ANAC, verificou-se um aumento dos custos das companhias na ordem de 58%; por outro lado a receita aumentou 56%, praticamente acompanhando os custos;
— O custo do litro médio do querosene de aviação, segundo dados da ANP, sofreu redução de 15% em 2015, o que proporcionou economia de cerca de R$ 2,29 bilhões, praticamente anulando o efeito do dólar valorizado.
— O custo atrelado ao dólar, que as empresas alegam atualmente ser de aproximadamente 60% dos custos, nos dados históricos divulgados até o ano de 2008 variaram sempre em torno de 25%. Não há comprovação de que agora estes custos saltaram ao patamar de 60%, isto é, mais que o dobro, sem que houvesse nenhum motivo especial para isto;
— Segundo dados da própria Abear, haverá redução da oferta entre 5% e 9% em 2016. Isto ocasionará uma menor quantidade de horas de voo voadas e consequentemente redução automática dos salários dos tripulantes. O salário variável dos tripulantes equivale a cerca de 50% da remuneração média;
Situação de cada empresa:
— A Azul recentemente recebeu aporte de cerca de R$ 2,1 bilhões (US$ 100 milh?es da United Airlines e US$ 450 milh?es do grupo chinês HNA);
— A Avianca nos últimos três anos cresceu sua receita anual em mais de 60%, adquirindo novas aeronaves mas mantendo o endividamento baixo, e além disso, vem melhorando os resultados líquidos e operacionais;
— A TAM obteve, de janeiro à setembro de 2015, um aumento de 160% em seu caixa.
— A GOL é a empresa nacional com o maior caixa, o qual foi ainda mais fortificado com o aporte de R$ 360 milhões (US$ 90 milhões) feito pelo acionista controlador da Companhia, e R$ 224 milhões (US$56 milhões) pela Delta.
Historicamente, nos últimos 15 anos, a categoria sempre atingiu pelo menos a reposição da inflação. Neste período houve a falência de grandes empresas e crises similares e, mesmo assim, nunca se chegou ao ponto de não haver nenhum reajuste salarial. Existe um temor em relação a demissões no setor, porém não há correlação entre eventuais desligamentos e as negociações salariais. Independentemente de haver ou não reajuste salarial, não será este fato que provocará ou evitará demissões.
Este entendimento equivocado deve ser combatido com fatos e argumentos, e o principal deles é que a folha dos tripulantes corresponde a cerca de 9,5% dos custos totais das empresas. Também é importante citar a sucessiva queda deste indicador, que correspondia a 13,3% em 2011.
É evidente que precisamos de empresas fortes e saudáveis. São elas que nos proporcionarão bons empregos. Por outro lado, é necessário lembrar que o empregado não participa do risco do negócio e não pode ser chamado para dividir eventuais prejuízos causados por fatores totalmente exógenos a ele. A categoria tem feito sua parte dia após dia, reduzindo o consumo de combustível, diminuindo os tempos de voos, melhorando os índices de pontualidade e atendendo os clientes com profissionalismo exemplar.
Sermos chamados, sem motivos e argumentos consistentes, para sofrermos uma perda gigantesca da nossa remuneração não é inteligente nem razoável.
Desta forma convocamos todos os aeronautas para manter a mobilização e atender todos os chamados nas assembleias, para que a nossa força e união sejam determinantes na busca dos nossos objetivos.
O SNA somos todos nós.
Diretoria do Sindicato Nacional dos Aeronautas